Escritor celebra o aprofundamento dos personagens na versão estendida do filme
O Tempo e o Vento sobre o filme é que na série há
mais tempo para desenvolver a história e incluir personagens que não
apareceram no cinema, ou apareceram pouco.
Já se viu isso no primeiro episódio, que incluiu
mais cenas do Pedro Missioneiro nas Missões. Eu havia lamentado que a
evocação da Rosa Mística, um dos nomes da Virgem Maria na literatura
sacra, não tivesse sido mais aproveitada no filme. A devoção do Pedro à
Rosa Mística é muito bonita. No filme, ele chama a Ana Terra de Rosa
Mística, mas a citação fica meio perdida, por falta de antecedentes que
na TV estão explícitos. O Pedro Missioneiro é um personagem importante
porque ele incorpora o segmento chamado A Fonte, no livro. É com o Pedro
Missioneiro que o mito se transforma em História. Pode-se até dizer,
com um certo exagero, que ele inaugura a história do Rio Grande do Sul
no ventre da Ana. A fonte, do título, é ele. O punhal de prata que ele
traz da Missão é a ligação dele com o passado, com a Europa, com os
sonhos de salvação dos índios e a regeneração da humanidade dos jesuítas
(o título de O Tempo e o Vento era para ser “O Punhal de Prata”), mas o
passado, o mito, termina com ele. Depois da sua morte, Ana e o filho
Pedro vão ajudar a fundar Santa Fé, vão civilizar-se. Vão começar a
História.
Na microssérie, também há tempo e espaço para
Luzia, a mulher de Bolívar, filho de Rodrigo e Bibiana. Luzia é uma
anomalia no romance, uma mulher complicada e frágil numa terra de
mulheres simples e fortes, e por isso mesmo uma personagem fascinante.
Ficou faltando, tanto no cinema quanto na TV, outra
personagem feminina importante, Ismália Caré. Os Caré representam o
avesso da nossa tradição épica, são o Rio Grande do Sul da miséria, dos
despossuídos em meio a uma cultura de fartura. Compreende-se, não daria
para incluir esse lado na série. Mas, no livro, embora isso tenha sido
pouco notado, com os Caré o autor escreve um contraponto para sua
própria história. E História.
A ideia da narração por meio do encontro da Bibiana
velha com o capitão Rodrigo redivivo era arriscada, mas deu certo, no
filme e na série. Palmas para os roteiristas e para o diretor, e
principalmente para a Fernanda Montenegro e o surpreendente Tiago
Lacerda, que fazem um dueto admirável. * Escritor, colunista de ZH e filho do autor de “O Tempo e o Vento”, Erico Verissimo

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